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sábado, 17 de abril de 2021

Aparição - Capítulo 6

 

6.

Senti-me embrutecido, atordoado em todo o corpo.


(57)

(...) Que fazemos nós na vida? Que incrível pertinácia nos resolve numa ilusão toda a imensidade do milagre de estar vivo? Não vale então nada, meu velho desconhecido, esse prodígio de seres, em face de uma mão que não é já a de um semeador?

Ou seja, haverá alguma razão que seja mais forte do que o fantástico de estar vivo? Algumas haverão, certamente, claro. Mas serão só essas que estão por detrás dos atuais números elevadíssimos de suicídios?

O dr. Moura não se apercebeu dos sinais dados pelo trabalhador Bailote. Esta é a também a tragédia de todos quantos convivem com as pessoas que, depois, se suicidam. Como evitá-la? Primeiro, nunca menorizar intenções verbalizadas de suicídio (não foi este o caso aqui relatado por Vergílio Ferreira). Segundo, dar tempo, atenção e compreensão a quem mostrar aflição (aqui, já houve, não direi a culpa, mas sem dúvida um lapso do dr. Moura; compreensível, embora, pois tinha um doente à espera).


(57/8)

Era necessário que todos os homens vivessem em estado de lucidez, se libertassem das pedras, chegassem ao milagre de ver. Era absolutamente necessário que a vida se iluminasse na evidência da morte.

Porquê a necessidade deste confronto com a morte? Vergílio Ferreira, noutro lugar (Espaço do Invisível IV, p. 16), explica-nos: (…) a vida é o maior bem do homem. Mas direi que é em face da morte que esse bem se ilumina, como é contra a noite que uma luz melhor se vê.

Esta "noite" é a consciência aguda e violenta de que

(58)

(...) Mas quem morre é o universo, é a pura necessidade de ser. (...)


(59)

O engenheiro recostou-se na cadeira como um advogado que se informa ao atender um cliente. Eu estava numa situação de inferioridade e o que desejava não era uma tolerância mas uma comunhão. (...)

Quantas vezes isto nos acontece! Com um livro, ou um filme, ou um simples pensamento que significam muito para nós e disso queremos dar notícia emocionada ao outro. E o outro usa de ceticismo, de desconfiança, de distância ao que nós dizemos. Não é agradável.

O problema é que nós fazemos exatamente o mesmo aos outros! E, no entanto, para que isso não acontecesse, bastaria apenas dar atenção e querer perceber o que fez a outra pessoa ficar emocionada, mais nada; e não querer dar uma resposta "inteligente", não querer pôr o nosso "eu" a separar-nos.


(60)

Procura! O rasto da tua radiação divina, o lume secreto da tua aparição, onde está?


(63)

(...) Mas no outro dia, assim que me levantei, coloquei-me no sítio donde me vira ao espelho e olhei. Diante de mim estava uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto. E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava.

Eis um dos pontos do romance onde se explica o título que o autor lhe deu.

Não é saber simplesmente que estou vivo. É sentir a revelação de que há algo sem nome em mim, de anterior a tudo quanto sei e recordo e ponho em palavras. Algo que está flagrantemente vivo e que fulgura em tudo e por detrás de tudo.


(67)

- Mastigar as palavras?

- Bem... É assim: a gente diz, por exemplo, pedra, madeira, estrelas ou qualquer coisa assim. E repete: pedra, pedra, pedra. Muitas vezes. E depois, pedra já não quer dizer nada.

Como, Carolino? Sabes então já a fragilidade das palavras, acaso o milagre de um encontro através delas connosco e com os outros? E saberás o que há em ti, o que te vive, e as palavras ignoram?

Repetir palavras negativamente carregadas constitui uma técnica comportamental antiga (Word Repeating Technique) que várias psicoterapias (por exemplo, a Acceptance and Commitment Therapy) ainda hoje usam para as esvaziar dessa carga emocional.

Curioso. Vergílio Ferreira detestava a "psicologia". Teria tido conhecimento desta técnica? Ou descobriu-a sozinho?

Quanto à técnica em si, considero o seu efeito psicológico questionável, já que o problema não está tanto na palavra em si, mas na ideia que ela simboliza. Quando me chamo de "burro" depois de uma asneira que fiz, esse nome incomoda-me e faz-me zangar ou ficar triste comigo mesmo. Mas não é a palavra em si que tem esse efeito, mas o que ela simboliza.

Parece-me que, mesmo que eu consiga dizer a palavra "burro" como se fosse uma sequência aleatória de sons sem significado aparente, o meu estado de espírito, fruto da minha perceção e posterior julgamento do que fiz, não se alterará significativamente. Por outras palavras, se uma ideia me queima de vergonha, não é por esvaziar a palavra que a nomeia que eu vou deixar de sentir essa vergonha.

Mas posso estar enganado e certamente haverá casos em que esta técnica será capaz de ajudar pessoas em dificuldades.

Voltando à ideia que Vergílio Ferreira aqui expressa, entendo que as palavras são fundamentais para chegar ao essencial de nós (a existência deste livro prova-o). Mas, depois, podem ser uma cortina que nos cega para realidade. Podem, inclusivamente, enganar-nos pois elas desconhecem o essencial de cada um de nós, e o que é específico e único em cada um de nós.


Eu tinha ainda de ir ao Nazaré antes que a livraria fechasse.


terça-feira, 6 de abril de 2021

Aparição - Capítulo 4

 

4.

Portanto, eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte. (...)


Este capítulo é um dos mais complexos, ricos e interessantes deste livro. Vergílio Ferreira consegue condensar em quatro páginas uma quantidade infinita de sabedoria. Constituindo cada frase, por si só, uma unidade de reflexão independente ou quase independente das outras. Uma escrita extraordinária!


(43)

Portanto, eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte. E nunca mais até hoje eu soube inventar outro. (...)

Ou seja, como viver totalmente presente, isto é, não distraído, não ausente, não entorpecido, não cego, etc.? Sabendo que vem aí a morte que nega tudo e tudo rasura?

Sim, quanto aos outros problemas sinto-os também um pouco como "invenções", que a maior parte deles não são tão reais assim (tanto que, passados uns anos, ou menos, esquecemos até que eles existiram).

Portanto, o problema: Se sei que vamos todos morrer, eu incluído, que valor pode ter a vida? aliás, pergunto-me muitas vezes: com tudo o que eu gasto e consumo para viver como vivo, de um ponto de vista objetivo, a minha vida vale tanto? Para, depois, acabar no nada? E, ainda por cima, esquecido, tão esquecido como se nunca tivesse existido. Confesso que às vezes tenho dúvidas.

São estas dúvidas que Vergílio pretende esclarecer neste capítulo. Dando uma resposta? Talvez não, talvez fazendo perguntas diferentes.

Mas há mais. A um nível mais imediatamente prático, como arranjar força para lutar contra a injustiça, a miséria, a prisão, sabendo que nada acaba e que tudo acaba? Mas, absolutamente, eu é que acabo e tudo acaba comigo, pois sou eu que me dou vida a essa luta e, acabando eu, acaba a luta para mim.


(43)

(...) - quantos modos de esquecer ou de não saber ainda o pequeno problema fundamental. (...)

Sim, tantas maneiras que a sociedade criou para nos distrairmos, para não pensarmos sequer! Temos essa pressão, mas acrescentamos-lhe outras da nossa lavra. Inventar problemas acessórios é, como vimos, uma delas. Além de que esquecer é algo que fazemos com muita facilidade. No fim de contas, a memória controlada pelo próprio ser vivo é um ganho evolutivamente recente. É como se este problema nos pesasse, como se a sua tensão fosse intolerável para uma vida que todos desejamos mais tranquila. Como diz Vergílio:


(43)

(...) E quantas vezes agora o esqueço? O mais forte em nós é esta voz mineral, de fósseis, de pedras, de esquecimento. Ela germina no homem e faz-lhe pedras de tudo. Assim, quando procuro em mim a face original da minha presença no mundo, o que descubro não é o alarme da evidência, o prodígio angustioso da minha condição: o que descubro quase sempre é a indiferença bruta de uma coisa entre coisas. (...)

Uma das razões pelas quais não acredito na iluminação budista é precisamente o facto de aquilo que, numa altura da nossa vida, constituiu uma iluminação, um relâmpago de sabedoria, desaparece sempre inevitavelmente. Com sorte, conseguimos ficar com alguns resíduos vivos, às vezes pistas que nos permitem chegar outra vez a um momento semelhante. Mas habitualmente nem isso.

Quando li a frase «quando procuro em mim a face original da minha presença no mundo», veio-me à ideia a definição de Mindfulness dada por Jon Kabat-Zinn: (...) awareness thar arises through paying attention, on purpose, in the present moment, non-judgementally.

Note-se que, para a palavra portuguesa consciência, os anglo-saxónicos têm pelo menos três diferentes: conscience (a nossa consciência moral), consciousness (a nossa consciência das coisas) e awareness (uma perceção e compreensão muito abrangentes de tudo o que se está a passar) que penso que só pode ter a tradução de "consciencialização".

Aquela definição está muito próxima do tipo de consciência que Vergílio defende. Repare-se que Jon Kabat-Zinn não diz, na definição, ao que a pessoa deve prestar atenção. Ora, a seguir, ele introduz uma pequena "batota", ao propor que prestemos atenção à respiração, o que, apesar de tudo, já é uma distração.

Vergílio Ferreira é, assim, muito mais radical (no sentido de sério e rigoroso). Ele pede a nossa atenção para o que é essencial e, como já o sabemos bem, «O essencial é invisível para os olhos...» (Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, fala da raposa). E que "essencial" é este? Se fosse possível dizê-lo, isso significaria que ele se teria tornado visível, logo, não essencial...


(44)

E todavia, agora que me descubro vivo, agora que me penso, me sinto, me projecto nesta noite de vento, de estrelas, agora que me sei desde uma distância infinita, me reconheço não limitado por nada mas presente a mim próprio como se fosse o próprio mundo que sou eu, agora nada entendo da minha contingência. Como pensar que «eu poderia não existir»? Quando digo «eu», já estou vivo... Como entender que esta iluminação que sou eu, esta evidência axiomática que é a minha presença a mim próprio, esta fulguração sem princípio que é eu estar sendo, como entender que pudesse «não existir»?(...) E todavia eu sei que «isto» nasceu para o silêncio sem fim...

E do silêncio sem fim... Também tento imaginar o que era ser eu antes de ter nascido, quem é que estava «lá». Claro que a resposta racional é «nada». Mas imaginá-lo é um muro que não se consegue ultrapassar, pois nós estamos do lado de cá, do lado da existência e da vida.

Gosto mais de tentar este exercício, chamemos-lhe assim à falta de palavra melhor, porque estou menos contaminado culturalmente por narrativas fantasistas. Porque é curioso como a religião em que eu nasci e me criei não se ocupa do que éramos nós antes de nascer. Apenas se preocupa com o que acontece depois. Assim, parto para esta procura com um olhar mais puro.

E, de repente, eu existo-me como nunca existi antes. Porque do que eu fui só tenho uma memória e, agora, eu sou uma vivência. Que é sempre única e insubstituível. E exaltante. Que resulta do milagre (pois de um milagre se trata) de estar vivo.


(45)

Mas ofendo-te, velha mulher, aqui a desvendar a tua psicologia - eu, que detesto como um insulto essa coscuvilhice das minudências íntimas, esse ofensivo desmontar de relojoaria, como se um ser humano fosse um brinquedo.

Não posso deixar de pensar que Vergílio Ferreira tem toda a razão. Mas a nossa necessidade de para tudo encontrar causas e efeitos (não esqueçamos que o cérebro que faz isto foi-nos dotado pela natureza e pela evolução a fim de melhorar as nossas condições de sobrevivência) leva-nos a todos (até ao próprio autor) a cair sempre neste processo um tanto degradante, se não estiver iluminado pela empatia e pela compaixão.

Mas não só. Também o deve acompanhar a humildade de aceitar que nos «enganamos» sempre. Isto é, que, por mais inteligentes e perspicazes que sejamos, não conseguimos viver o que o outro está a viver, em primeiro lugar. Em segundo, quando traduzimos aquela tentativa de compreensão por palavras, estamos a destruir irremediavelmente a complexidade e a energia da pessoa objeto da nossa observação, reduzindo-a muitas vezes a uma caricatura falsa e cruel. Macbeth, pela mão de Shakespeare, de alguma forma alerta-nos:

Life's but a walking shadow, a poor player

That struts and frets his hour upon the stage

And then is heard no more: it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.

Ou, em português:

A vida é apenas uma sombra errante, um mau ator

A se pavonear e afligir no seu momento sobre o palco

E do qual nada mais se ouve. É uma história

Contada por um idiota, cheia de som e fúria,

Significando nada.


Em suma, Vergílio Ferreira detesta a Psicologia. a explicação e a descrição de como o ser humano funciona, porque o que é fundamental para a vida não é o "como", mas "o que" ou "quem" eu sou.


(...) assim eu esqueço tudo, e o que te resume, boa mulher, é esse teu velho álbum de fotografias, que tanta vez me explicaste por saberes que eu conhecia já a vertigem do tempo e me legaste depois para o guardar e eu tenho agora aqui na minha frente como o espectro das eras e das gentes que já mal sei e me fitam ainda do lado de lá da vida e me querem falar sem poderem e me angustiam como o olhar humano do Mondego dias antes de o António o matar.


segunda-feira, 29 de março de 2021

Aparição - Capítulos 1, 2 e 3


1.

Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora. (...)


(13)

Está uma manhã bonita, com um sol íntimo dourando o ar, um vento leve da planície, fresco de orvalhos.

É a primeira “intervenção” de muitas da cidade de Évora. Cidade – Personagem? Ou espaço ao serviço das personagens? Isto é, saberemos do estado de espírito das personagens pela maneira como veem e sentem a cidade? A resposta à segunda parte da pergunta parece-me evidente que é positiva. Mas eu acarinho a ideia de que Évora é também uma personagem deste livro, é certo que uma personagem com muitas faces e muitas ressonâncias, mas personagem apesar de tudo.

 

(18)

Relembro. Uma grande mesa oval resplandecente de brancura, cristais, reflexos de louças, dois grandes candeeiros de globos pálidos, e fora, pelos espaços da noite nua, uma memória grande de paz. Um longo abraço, quente de ternura, sufoca-nos a todos na procura de um refúgio, de uma alegria perdida quando? onde? o sonho não é de nunca.

«Uma alegria perdida» talvez quando a mãe começa a afastar-se do bebé. Quando os pais começam a afastar-se. Ou seja, quando saímos ou somos obrigados a sair da infância.

 

(...) Uma grande lua solene, suspensa sobre a aldeia, banhava toda a massa da montanha.

 


2.

Inútil tentar dormir. (...)


(...) Quer saber onde é que o pode encontrar.



3.

Mas não foi fácil encontrarmo-nos. (...)


(31) Apresentação das personagens femininas deste romance.

Uma constante na escrita de Vergílio Ferreira: mulheres surgem-nos mitificadas pelo olhar do narrador. Penso que tem a ver com o facto de, no tempo da ditadura, durante os primeiros anos de vida em que as raparigas “aparecem”, os rapazes eram afastados e dificilmente podiam conviver com elas.

No caso de Vergílio Ferreira (que esteve vários anos num seminário), acrescenta-se o afastamento da mãe que terá deixado uma “ferida” aberta e uma sede de uma mulher maior que a vida capaz de preencher esse vazio original e capaz de curar essa “ferida”.

Mas isso tudo pertence ao passado, poder-se-á argumentar. Pois, mas é o passado a matéria romanesca da maior parte dos seus romances. Porque, segundo Vergílio, só o passado abre o espaço à evocação maravilhada.

E quando se junta o feminino e a arte, como quando Cristina toca piano em (35 e 36), então surge aos nossos olhos de leitores o testemunho de uma vivência simplesmente extasiada.

 

(32)

Mas a arte não era para mim um mundo da letra impressa, uma estúpida invenção de passatempo ou de vaidade: era uma comunhão com a evidência, uma reencarnação na verdade de origens (…)

Pelo menos em Vergílio Ferreira, a arte é isto. Mas eu partilho desta visão da arte que ele, aliás, desenvolveu extensamente na sua obra ensaística.

 

(32)

Sim, Ana. Essa tua inquietação, essa tua fúria silogística, o desejo encarniçado de demonstrares, deram-me cedo a certeza de que nada em ti estava seguro.

É interessante como, abominando Vergílio Ferreira a psicologia (como veremos confirmado mais à frente), ele nunca deixa de ter observações psicológicas absolutamente perspicazes e certeiras (e que nada têm a ver com a habitualmente chamada “psicologia de café”).

 

(34)

Imprevistamente, Ana regressou à sua obsessão:

- Há uns versos no seu livro que me intrigam. Dizem assim, mais ou menos:

Do sangue nascem os deuses

que as religiões assassinam.

Ao sangue os deuses regressam

e só aí são eternos.

- Ah, não! - clamou Moura, bruscamente acordado na sua sobremesa. - Deixem Deus sossegado e o doutor Soares também.

E Vergílio Ferreira não nos diz mais nada sobre estes versos, deixando a nós, leitores, o trabalho e o prazer de os interpretar. Eis uma das coisas que mais aprecio neste escritor: como ele diz noutro lugar, ele assume sempre que o leitor é inteligente. E muito eu aprecio isso!

Como os interpreto eu? Com a ajuda de outras leituras que fiz de Vergílio Ferreira, suponho que os deuses nascem da nossa profunda fragilidade humana e da correspondente necessidade de alguma segurança. Nomeadamente, o ser humano sabe, ao contrário dos outros animais, que vai morrer. Este conhecimento seria insuportável se estivesse sempre presente no nosso espírito e se não tivéssemos um viés do otimismo impregnado em nós (ver Tali Sharot (2012). The Optimism Bias. Londres: Constable & Robinson Ltd.). Mas é uma realidade incontornável. Porém, além disso, os seres humanos precisaram de se apoiar em alguém mais poderoso e protetor do que eles e dessa necessidade profunda surgiram os deuses.

Porém, a institucionalização dessa criação tornou-a estúpida e vazia de sentido e, por consequência, “Deus morreu”. Mas a necessidade e a busca original ainda continuam vivas e angustiantes no ser humano, no mais fundo de si.

Também interpreto este poema como querendo alertar-nos para o risco de, ao querer encaixar os nossos valores mais profundos num regulamento ou numa instituição, poderem perder o seu fulgor e deixarem de ser uma fonte de motivação e de força interiores. Os nossos valores mais autênticos é ao mais fundo de nós que os devemos procurar e tentar encontrar, não fora de nós. Encontrados aí no nosso íntimo profundo, é aí que eles viverão talvez para sempre.


(35)

Cristina toca: E então eu vi, eu vi abrir-se à nossa frente o dom da revelação.

Todo este trecho me surge como metáfora do "nascimento" da Arte.


(39)

E, todavia, como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. Toda a manhã lutei não apenas com elas para me exprimir, mas ainda comigo mesmo para apanhar a minha evidência. A luz viva nas frestas da janela, o rumor da casa e da rua, a minha instalação nas coisas imediatas mineralizavam-me, embruteciam-me. Tinha o meu cérebro estável como uma pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para reparar a minha evidência necessitava de um estado de graça. Como os místicos em certas horas, eu sentia-me em secura. (…)

Palavras para acordar a consciência (no sentido de "awareness", não no sentido de "conscience", nem de "consciousness"). Depois, para guardá-la na memória. E palavras para, exprimindo-me, chegar aos outros, seja como "informação", seja como "obra de Arte".

O facto é que muitos insights são relâmpagos, não são dias claros e longos. O problema é sempre como voltar ao estado de graça inicial. Escrevemos para mais tarde podermos agarrar aquela evidência. Só que, fora do estado de graça, aquelas palavras tornam-se opacas, obscuras e deixam de fazer sentido para nós. Isto, claro, porque não somos Vergílio Ferreira. De cada vez que leio umas páginas deste livro, o estado de graça reacende-se como se estivesse sempre ali, apenas à espera de que uma luz o ilumine. Vergílio Ferreira é sempre essa luz constante e única.

 

(41)

(…) A verdade aparece e desaparece. Deus, a imortalidade e uma ideologia política e a sedução de uma obra de arte e a sedução de uma mulher – onde começam?, onde findam? Sou um indizível equilíbrio interior. Vivi, agi, toquei com as mãos tanta ilusão consistente. Depois a ilusão desfez-se. (…) Não cabe. Como não cabe a simpatia das mulheres que aborreci. Como não cabem as anedotas da infância, que já não têm graça nenhuma. Como não cabe nada do que já não sou eu. Não discuto, agora, não discuto! Sei lá porque é que uma anedota de que ri não tem hoje para mim graça nenhuma! Sei só que a não tem.

O mistério das coisas que nos encantaram e que, depois, perderam todo o brilho. O reverso disto é o Curse of Knowledge bias: nós já não nos lembramos do que é não saber, não dominar uma determinada competência. Por exemplo, o que me é não saber ler? Ou me não saber andar de bicicleta? Por já não conseguirmos evocar essas experiências antigas de “ausência” desse conhecimento, fica irremediavelmente perdida a surpresa fascinada das primeiras leituras ou dos primeiros passeios de bicicleta sem cair.

Como é fulcral este equilíbrio interior! Que evidencia como as razões vivem póstumas à decisão inconsciente, que é feita lá onde não chegamos. Mais, de as razões serem supérfluas e, na verdade, "não verdadeiras". Por isso, a exclamação «Sei lá porque (...)!». Razões que são muitas vezes apenas construções artificiais que procuram aprisionar o indizível.

 

(41)

E, todavia, pesa-me como uma pata de violência a realidade da pessoa que somos. Há muita coisa a arrumar, a harmonizar, muita coisa ainda a morrer. Mas por enquanto está viva. 

Esta «realidade» que sei que vai acabar. Mas sei-o apenas com um conhecimento académico, praticamente impossível de sentir verdadeiramente, a não ser em momentos de exceção. Podemos somente não ignorar o confronto dessa minha «realidade da pessoa» que sou com a ideia de morte, não tentando aliviar a tensão aí criada, a fim de ser inteiramente humano. E poder apreciar integralmente a dádiva de estarmos vivos.


(41)

Por enquanto sinto a evidência de que sou eu que me habito, de que vivo, de que sou uma entidade, uma presença total, uma necessidade do que existe, porque só há eu a existir, porque eu estou aqui, arre!, estou aqui, EU, este vulcão sem começo nem fim, só actividade, só estar sendo, EU, esta obscura e incandescente e fascinante e terrível presença que está atrás de tudo o que digo e faço e vejo - e onde se perde e esquece. EU! Ora este «eu» é para morrer. Morre como a intimidade de uma casa derrubada. Sei-o com a certeza absoluta do meu equilíbrio interior. Mas como é possível? Agora eu sou essa intimidade, agora eu sou o seu espírito, a sua evidência.

Mais uma vez, uma bela aproximação do Eu Observador. Como já referimos no final da postagem anterior, pela sua própria natureza, o Eu Observador não é suscetível de ser descrito pela linguagem, como Steven C. Hayes nos diz na obra referida: (…) the observing self is not an object of verbal relations. That is why we “know” less about it. The observing self is not a content-based sense of self that can be described directly. (…).


(...) Agora eu sou essa intimidade, agora eu sou o seu espírito, a sua evidência.


Aparição - Capítulo 10

  10. Trabalho no Liceu com entusiasmo - o entusiasmo do principiante, ou seja, do que ainda está criando. (...) (108) (...) Mas eu sabia, e...