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quinta-feira, 17 de junho de 2021

Aparição - Capítulo 10

 

10.

Trabalho no Liceu com entusiasmo - o entusiasmo do principiante, ou seja, do que ainda está criando. (...)


(108)

(...) Mas eu sabia, eu, que não tenho um Deus que me justifique e redima, eu, que, luto há tanto tempo por reconduzir à dimensão humana tudo quanto traz ainda um rasto divino, eu, que desejo reabsorver isso na minha condição mortal e efémera de um pobre arranjo de água e barro, eu, que nada recuso à minha emoção e ao meu alarme de tudo quanto me alarma ou me comove, eu, que sou materialista mas não só de um materialismo que se mede a metro e pesa na balança, eu, que conto com o reinado integral do homem na terra da sua condenação e grandeza, assumindo tudo quanto se anuncia em mistério e exaltação, (...)

Belíssimo programa de uma vida mais elevada (para além das misérias do dia-a-dia que nos arrastam para baixo), plena e una na sua multiplicidade.

Relativamente a «não tenho um Deus que me justifique e redima». Todos procuramos estas duas coisas, a justificação e a redenção. Deus ajudava a consegui-lo. Agora, que Deus morreu, é mais difícil. Justificação ainda vamos encontrando noutras paragens. No meu caso pessoal, nas Neurociências, na Psicologia Evolucionista e na Psicologia do Trauma.

Porém, a possibilidade de redenção desapareceu juntamente com Deus, pelo menos, para mim. Não existe redenção, só posso esperar encontrar algum alívio nesta situação de condenado sem esperança e de ausência de inocência, na prática da bondade, da generosidade e da compaixão com o mundo. Às vezes, lembrando-me de me sentir agradecido por poder fazê-lo.


(109)

(...) Falei aos moços de Proust, do tempo reencontrado nas lembranças, do halo que se ergue de um sabor que se conheceu na infância, das pervincas azuis de Rousseau, reencontradas mais tarde com a memória de outrora. Mas a minha memória não era bem essa. A minha memória não tinha apenas factos referenciáveis, não exigia a sua recuperação para que o halo se abrisse. A minha memória não era memória de nada. Uma música que se ouve pela primeira vez, um raio de sol que atravessa a vidraça, uma vaga de luar de cada noite podiam abrir lá longe, na dimensão absoluta, o eco dessa memória, que ia para além da vida, ressoava pelos espaços desertos, desde antes de eu nascer até quando eu nada fosse há muito tempo para lá da morte. Visão de uma alegria sem risos, de uma plenitude tranquila, ela falava de um tempo imemorial como as vozes oblíquas da noite e do presságio. A presença imediata esvaziava-se e o que ficava pairando era um tecido de bruma e de nada, canção sem fim, harmonia ignota de paragens sem nome. (...)

Um trecho maravilhoso sobre a memória. A memória de origens, da nostalgia do nunca, fazendo emergir emoções que tanto vêm do passado como do futuro, ambos talvez sonhados.

Ainda hoje de manhã, aqui em Olhão, um céu de neblina, um cheiro húmido e fresco a maresia, a fazerem nascer em mim a memória antiga da casa da Figueira da Foz, fria e sombria, acolchoada de madeiras, habitada por um desespero tranquilo não isento de uma esperança obscura.


(110)

(...) um homem que se interroga, se procura no absoluto de uma plenitude que é o seu sonho de entre pedras e cardos. (...)

Porque, para nos aproximarmos da plenitude sonhada, nunca podemos parar de interrogar o mundo e nós próprios. Interrogar não no sentido de fazer perguntas analíticas, mas no de buscar tudo o que não é imediatamente evidente, tudo o que não se pode encontrar na superfície das coisas, tudo o que é mais do domínio da emoção original do que do pensamento (ainda que holístico).


(111)

(...) Eu, porém, não sabia se o entendia bem, porque era possível que eu entendesse nele só o que sabia de mim. (...)

O germe de um anúncio de Estrela Polar? À parte desta lembrança minha, suspeito que é sempre isto que fazemos. Acabei de ler Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, e ela ilustra bem este processo. Mais, além disso, nós por vezes também entendemos nos outros o que que estamos à espera de lá encontrar, normalmente a partir dos nossos preconceitos e ideias feitas - ou seja, a partir do que eu não sei de mim, mas que indubitavelmente pertence a mim.


(111)

(...) a sua curiosa destruição da linguagem:

Retomando o tema de (67).


(...) A galinha tombou num baque surdo e lá ficou, toda enovelada de penas, uma asa ainda semiaberta, cobrindo-lhe quase as patas estendidas.


sábado, 12 de junho de 2021

Aparição - Capítulo 9

 

9.

E a vida recomeçou. (...)


(83)

(...) Fixar uma vida em torno de uma ideia, de um sentimento, como é difícil! À unidade que nos pré-existe a cada um, à unidade de sermos, a vida imediata, quotidiana, é uma selva de caminhos, de veredas, de confusa vegetação. Tão fácil perdermo-nos! O mais grave, porém, é que na sua rede muitas vezes não sentimos que nos perdemos. Cada caminho impõe-se-nos na sua presença imediata. Um caminho é «o» caminho em cada instante que passa. (...)

E isto é tão verdade, desde as coisas mais prosaicas (como atermo-nos a um projeto de trabalho que nos apaixona) até às mais metafísicas (como descobrirmos o que de diferente e bom nos acontece momento a momento). Distraímo-nos, pensando que não e só a posteriori é que damos conta do engano e da perda de tempo.

Vergílio alerta-nos para o que pode correr menos bem quando se trata dos caminhos que podemos encontrar (ou desencontrar) no sentido de alcançar uma maior consciência e aí permanecer. Como se se tratasse de uma espécie de guia de auto-orientação ou de um mapa para um viajante metafísico.


(86)

(...) Mas o curso não era para entreter, era para lhe firmar uma... uma consciência. Sem dúvida, num curso pouco se aprende. Mas dá-nos pontos de referência, talvez nos dê uma certa forma de responsabilidade.

Boa questão: para que serve um curso? A 16 de Agosto de 1971, Vergílio diz no seu Conta-Corrente 1 (p. 93) que «A educação traça um horizonte de possíveis ao possível que se é.» Concordo em absoluto, desde que a área de conhecimento que estamos a "desbravar" esteja alinhada com os nosso interesses e afetos, caso contrário o curso servirá para muito pouco.

Em mim, veja-se a diferença entre o que a Engenharia Civil e a Psicologia contribuíram para me enriquecer como pessoa. Basta dizer que tenho o curso de Engenharia, mas não "sou" engenheiro; enquanto que, no que se refere à Psicologia, eu integrei-a na minha vida do dia-a-dia, na forma como me relaciono com os outros e naquilo que sou (ironicamente, apesar de nunca ter chegado a ser oficialmente um Psicólogo).

Portanto, um curso pode ser uma oportunidade excecional para crescermos como pessoas. Porque, quanto a aprender, aprende-se, não bem pouco, mas muita coisa "ao lado" do que nos é verdadeiro. Para mim, a outra grande vantagem do curso de Psicologia (o de Engenharia nem para isso serviu) foi dar-me meios de aprender por mim próprio sobre tudo aquilo que posteriormente me veio a suscitar a minha curiosidade, ensinando-me a distinguir o que não presta daquilo que é fiável.


(87)

(...) Mas eu não te ensinei nada! Ninguém nos ensina nada, talvez, minha amiga. Só se consegue aprender o que nos não interessa. Porque o mais, o que é do nosso fundo destino, somo-lo: se alguém no-lo ensinou, não demos conta disso. Ensinar então é só confirmar.

Uma afirmação polémica de Vergílio, daquelas que eu gosto porque "acorda" a nossa curiosidade habitualmente cansada e, assim, promove descobertas imprevistas. Claro que aqui ele mistura dois níveis de forma provocadora: o pessoal e o académico. Eles estão habitualmente separados, mas houve momentos do curso em que eles se tocaram e se chegaram a interrelacionar-se: por exemplo, nas disciplinas de Psicanálise ou de Epistemologia das Ciências. A sensação que eu tive é que eram peças que se encaixavam perfeitamente no puzzle (incompleto!) que era o meu «eu» - uma espécie de confirmação, acho eu.

A última frase também é muito interessante. Quando saímos da posição de aprendente para a de ensinante, algo continua como se elas fossem dois pólos da mesmíssima coisa. Portanto, quando ensino, ou melhor, quando preparo as aulas e quando os alunos questionam o que eu digo, lá volta a sensação de um puzzle a completar-se. Aqui, sim, a confirmação do que sou, e do que defendo a partir do que sou (não apenas do que conheço).


(89)

(...) Depois fui político. Ser avançado era bom e verdadeiro como ter força e ser novo. Depois deixei de ser novo e de fazer barulho. E, quando não houve barulho, ouvi vozes obscuras, submersas a esse mesmo barulho. Depois a vida não teve significado, porque me estava sem emprego. Bom: então, deste grau zero, descobri que estava vivo, que existia, e era eu. E agora tento salvar essa extraordinária descoberta, pô-la a funcionar com o universo e a morte. Voilà.

Autobiografia política do próprio Vergílio? Bem provável.


(95)

(...)

- Tenho de ir indo.

- Já dei ordens para o jantar. Não seja cobarde e desmancha-prazeres.

Uma fúria de cães mastigou-me os nervos. Seria havia pecado que pudesse vexar-me, era esse da cobardia. (...) Não entendiam que assumir a miséria do homem, enfrentar o que humilhava a sua condição era um sinal de coragem mais profunda.

- Não sei o que pretende de mim - disse eu. - Mas sei que não sou cobarde.

- Então sente-se - respondeu, enquanto abria a mesa.

Vergílio disse anos mais tarde que faltava às personagens de Aparição uma grandeza que estava presente em Cântico Final. Sim, Alberto é um anti-herói, talvez não cobarde, mas em que a voz da submissão está muito presente. Veja-se este episódio em que Ana o coloca numa "no-win situation": se ele sair, é porque foge em cobardia; se ele ficar, é porque obedece... em cobardia, novamente. Como sair desta situação?

Uma via poderia ser expondo o jogo desonesto de Ana, rindo-se dos seus ardis e acabando a fazer o que realmente lhe apetecia - ir-se embora (porque ele não desejava a companhia de Ana, que tinha acabado de o insultar, nem certamente a de Alfredo ou de Chico). Mas ele fica. Submissamente.


(98 e 99)

(...) Chico (...) Irra, falemos claro: que pretende você?

(...)

(...) Adequar a vida (que é um pleno de ser, um absoluto, uma positividade necessária) com a morte (que é uma nulidade integral, uma pura ausência, um nada-nada).

- Sou materialista! - disse eu.

(...)

- É exactamente porque sou materialista que esse mundo me intriga. Se tivesse deuses para lhes recambiar estes seus bens não me interrogava duas vezes. Interrogo-me, porque a morte é um muro sem portas.

Extraordinária definição de morte. E tão simples: «um muro sem portas.»


(...) A casa no Alto.


sábado, 15 de maio de 2021

Aparição - Capítulo 7

 

7.

Só no dia seguinte eu soube que a nossa conversa em casa do engenheiro tinha sido largamente comentada em casa dos Cerqueiras. (...)


(70)

Mas com quem falei primeiro foi com Sofia. Era um sábado e chovia desde alta noite. Lembro-me bem dessa primeira chuvada de Inverno, porque a chuva tem para mim o abalo da revelação e abre como auréola o halo da memória ao que nela aconteceu. Subtilmente, aliás, é à vibração inefável das horas da natureza que eu posso reconhecer melhor o que me vivi no passado. Um sol matinal, a opressão das sestas do Verão, o silêncio lunar, os ventos áridos de Março, os ocos nevoeiros, as massas pluviosas, os frios cristalizados são o acorde longínquo da música que me povoa, tecem a harmonia vaga de tudo o que fiz e pensei. (...)

Quando leio estas palavras, abre-se-me um espaço de evocação que não sou capaz de situar nem de particularizar, mas que me enche e me faz sentir vivo de uma estranha maneira, porém boa e autêntica, embora intransmissível. Talvez seja isto que, um pouco mais à frente, Vergílio Ferreira diz:

Conheço uma certa emoção das horas, sei da aparição dos instantes-limite, das vozes submersas, e gostava de dar aos outros essa notícia. Há uma vida atrás da vida, uma irrealidade presente à realidade, mundo das formas de névoa, mundo incoercível e fugidio, mundo da surpresa e do aviso. Assim o próprio presente pode ter a voz do passado, vibrar como ele à obscuridade de nós. A minha retórica vem do desejo de prender o que me foge, de contar aos outros o que ainda não tem nome e onde as palavras se dissipam com a névoa do que narram.


(74)

- Ouça, doutor: se alguma coisa me preocupou sempre foi ser consequente, unir o que faço ao que sinto. Porque não faz o mesmo?

Conseguimos habitualmente distinguir o fazer do sentir, embora eles estejam interligados, influenciando-se mutuamente de formas que ainda não entendemos completamente. No entanto, todos sabemos que o sentir, principalmente quando é intenso, se sobrepõe ao pensar, capturando este e pondo-o ao seu serviço (por isso é que encolerizados, assustados ou tristes podemos decidir fazer coisas de que nos arrependemos depois). Portanto, há que resistir, não para destruir o sentir, mas para conseguir uma colaboração mútua com o pensar e o atuar. Se não o fizermos, o resultado pode ser o de Sofia: solidão e uma espiral autodestrutiva a desembocar num beco sem muitas saídas.

Aliás, todos sentimos que há algo de selvagem neste desafio de Sofia. E, se não sentimos, o autor induz-nos a senti-lo nas reações de Alberto. De qualquer maneira, irmos a reboque das emoções e dos sentimentos não é liberdade, mas apenas uma ilusão dela.

Por outro lado, o que é verdadeiramente difícil é unir o que faço ao que penso ser justo e correto. Estarei a ser muito pessimista quando disser que, quase sempre, temos medo de o fazer? Quanto às emoções, é bem mais fácil: basta deixarmo-nos arrastar por elas... e quantas vezes o fazemos! Precisamente, por exemplo, quando temos medo de atuar de acordo com as nossas convicções mais elevadas!...


(74/5)

(...) Mas ela, com uma energia que era eficaz por me pôr diante de mim, por vir dela - um ser frágil -, repeliu-me com raios no olhar.

Senti-me miserável como quem é apanhado nu: (...)

Sofia despreza Alberto porque este limita-se a ir atrás do que sente, em primeiro lugar. Em segundo, porque ele atua em reação ao desafio dela, não em função da sua verdade mais profunda. Ficamos na dúvida sobre a autenticidade do gesto de Alberto.


(76)

Sofia falava. (...) Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que vivê-la no imediato, na execução absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser só abertura para amanhã. A vida real não eram as leis dos outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solitária. O absoluto da vida, a resposta fechada para o seu fechado desafio só podia revelar-se e executar-se na união total com nós mesmos, com as forças derradeiras que nos trazem de pé e são nós e exigem realizar-se até ao esgotamento. Este «eu» solitário que achamos nos instantes de solidão final, se ninguém o pode conhecer, como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse «eu» e a sua descoberta, se o condenamos à prisão? Sabê-lo é afirmá-lo! Reconhecê-lo é dar-lhe razão. (...)

Leio isto fascinado. Sinto um impulso quase irresistível para uma adesão total. Mas, Depois, começam a surgir-me uns alertas.

O primeiro é que "Eliminar o desejo dos outros" não é eticamente recomendável, além de ser pouco útil. Porque, ao tentarmo-lo, os outros vão resistir, não vão deixar que isso aconteça, obviamente. E isso trará, na melhor das hipóteses, demasiado ruído para um esforço que necessita de calma e concentração de esforços. Na pior, pode levar à tentativa de os outros nos destruírem (que é o que vai acabar por acontecer).

O "erro" aqui de Sofia é imaginar que aquele «eu» original existe independente dos outros, que faça ela o que fizer, ele não será afetado pela existência dos outros «eus». O ser humano é inerente e inatamente social: sabemos disso logo no início deste romance com o efeito que a aparição da mulher do narrador tem sobre este.

O segundo é que este «eu» e as suas forças nem sempre são de plenitude (já não falo de felicidade). Vivê-los até «até ao esgotamento» pode ser entrar numa espiral de violência contra os outros e contra nós mesmos, sem isso implicar que vivamos uma vida mais plena de significado.

Mas, sem dúvida, esta proposta fascina-nos:

(...) Que ao menos nós lhe dêmos, a isso que somos, a oportunidade de o sermos até ao fim. Gritar aos astros até enrouquecermos. Iluminarmos a brasa que vive em nós até nos  consumirmos. Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita. (...)


- Meu bom assassino...


sábado, 17 de abril de 2021

Aparição - Capítulo 6

 

6.

Senti-me embrutecido, atordoado em todo o corpo.


(57)

(...) Que fazemos nós na vida? Que incrível pertinácia nos resolve numa ilusão toda a imensidade do milagre de estar vivo? Não vale então nada, meu velho desconhecido, esse prodígio de seres, em face de uma mão que não é já a de um semeador?

Ou seja, haverá alguma razão que seja mais forte do que o fantástico de estar vivo? Algumas haverão, certamente, claro. Mas serão só essas que estão por detrás dos atuais números elevadíssimos de suicídios?

O dr. Moura não se apercebeu dos sinais dados pelo trabalhador Bailote. Esta é a também a tragédia de todos quantos convivem com as pessoas que, depois, se suicidam. Como evitá-la? Primeiro, nunca menorizar intenções verbalizadas de suicídio (não foi este o caso aqui relatado por Vergílio Ferreira). Segundo, dar tempo, atenção e compreensão a quem mostrar aflição (aqui, já houve, não direi a culpa, mas sem dúvida um lapso do dr. Moura; compreensível, embora, pois tinha um doente à espera).


(57/8)

Era necessário que todos os homens vivessem em estado de lucidez, se libertassem das pedras, chegassem ao milagre de ver. Era absolutamente necessário que a vida se iluminasse na evidência da morte.

Porquê a necessidade deste confronto com a morte? Vergílio Ferreira, noutro lugar (Espaço do Invisível IV, p. 16), explica-nos: (…) a vida é o maior bem do homem. Mas direi que é em face da morte que esse bem se ilumina, como é contra a noite que uma luz melhor se vê.

Esta "noite" é a consciência aguda e violenta de que

(58)

(...) Mas quem morre é o universo, é a pura necessidade de ser. (...)


(59)

O engenheiro recostou-se na cadeira como um advogado que se informa ao atender um cliente. Eu estava numa situação de inferioridade e o que desejava não era uma tolerância mas uma comunhão. (...)

Quantas vezes isto nos acontece! Com um livro, ou um filme, ou um simples pensamento que significam muito para nós e disso queremos dar notícia emocionada ao outro. E o outro usa de ceticismo, de desconfiança, de distância ao que nós dizemos. Não é agradável.

O problema é que nós fazemos exatamente o mesmo aos outros! E, no entanto, para que isso não acontecesse, bastaria apenas dar atenção e querer perceber o que fez a outra pessoa ficar emocionada, mais nada; e não querer dar uma resposta "inteligente", não querer pôr o nosso "eu" a separar-nos.


(60)

Procura! O rasto da tua radiação divina, o lume secreto da tua aparição, onde está?


(63)

(...) Mas no outro dia, assim que me levantei, coloquei-me no sítio donde me vira ao espelho e olhei. Diante de mim estava uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto. E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava.

Eis um dos pontos do romance onde se explica o título que o autor lhe deu.

Não é saber simplesmente que estou vivo. É sentir a revelação de que há algo sem nome em mim, de anterior a tudo quanto sei e recordo e ponho em palavras. Algo que está flagrantemente vivo e que fulgura em tudo e por detrás de tudo.


(67)

- Mastigar as palavras?

- Bem... É assim: a gente diz, por exemplo, pedra, madeira, estrelas ou qualquer coisa assim. E repete: pedra, pedra, pedra. Muitas vezes. E depois, pedra já não quer dizer nada.

Como, Carolino? Sabes então já a fragilidade das palavras, acaso o milagre de um encontro através delas connosco e com os outros? E saberás o que há em ti, o que te vive, e as palavras ignoram?

Repetir palavras negativamente carregadas constitui uma técnica comportamental antiga (Word Repeating Technique) que várias psicoterapias (por exemplo, a Acceptance and Commitment Therapy) ainda hoje usam para as esvaziar dessa carga emocional.

Curioso. Vergílio Ferreira detestava a "psicologia". Teria tido conhecimento desta técnica? Ou descobriu-a sozinho?

Quanto à técnica em si, considero o seu efeito psicológico questionável, já que o problema não está tanto na palavra em si, mas na ideia que ela simboliza. Quando me chamo de "burro" depois de uma asneira que fiz, esse nome incomoda-me e faz-me zangar ou ficar triste comigo mesmo. Mas não é a palavra em si que tem esse efeito, mas o que ela simboliza.

Parece-me que, mesmo que eu consiga dizer a palavra "burro" como se fosse uma sequência aleatória de sons sem significado aparente, o meu estado de espírito, fruto da minha perceção e posterior julgamento do que fiz, não se alterará significativamente. Por outras palavras, se uma ideia me queima de vergonha, não é por esvaziar a palavra que a nomeia que eu vou deixar de sentir essa vergonha.

Mas posso estar enganado e certamente haverá casos em que esta técnica será capaz de ajudar pessoas em dificuldades.

Voltando à ideia que Vergílio Ferreira aqui expressa, entendo que as palavras são fundamentais para chegar ao essencial de nós (a existência deste livro prova-o). Mas, depois, podem ser uma cortina que nos cega para realidade. Podem, inclusivamente, enganar-nos pois elas desconhecem o essencial de cada um de nós, e o que é específico e único em cada um de nós.


Eu tinha ainda de ir ao Nazaré antes que a livraria fechasse.


sexta-feira, 9 de abril de 2021

Aparição - Capítulo 5

 

5.

E todas as quartas e sábados eu dava lição a Sofia.


(47)

Começámos pelo princípio para recapitular. Ela cantava as declinações, tinha um modo gracioso de se enganar e de tal forma que eu sentia obscuramente que os erros é que estavam certos. E era assim como se qualquer coisa a habitasse e fosse maior do que ela e do que a miséria das regras de gramática. Mas tinha sobretudo uma maneira brusca e cravada de travar e de me ficar olhando, como se me procurasse em qualquer sítio de mim onde não houvesse lembrança do que estávamos dizendo.

Como toda esta geração que cresceu sem amizades femininas, assistimos aqui mais um exemplo de mitificação da mulher - devo dizer que, se calhar erradamente, considero esta uma das formas mais belas e poéticas de sexismo benévolo... porque, apesar de muito matizado, é um sexismo benévolo que aquele excerto do romance revela. Senão, vejamos:

«Estes sentimentos "positivos" caracterizam as concepções sexistas benévolas, que se expressam através de atitudes de admiração e proteção e, na maioria das vezes, não são consideradas como uma forma de discriminação contra a mulher.» (Raquel Pereira Belo; Valdiney V. Gouveia; Jorge da Silva Raymundo; Célia Maria Cruz Marques (2005). Correlatos valorativos do sexismo ambivalente. Psicol. Reflex. Crit. vol.18 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2005)

Tal como Vergílio Ferreira, passei por isto e, ainda hoje, não consigo deixar de, ao nível emocional, mergulhar nesta mitificação. Depois, o meu cérebro racional (auxiliado pela memória de muitas desilusões) vem abrir-me os olhos para eu não levar a sério esta fantasia.

Passei por isto, mas não só, também pela reação suplementar a esta que Vergílio Ferreira descreve aqui magistralmente:

(48)

(...) E eu sentia que tudo o que é vivo na terra estava ali presente no seu corpo. Que tinha que fazer, frente à execução da alegria, o meu pobre ministério de cadáver? Assim um íntimo desastre me tolhia e  envelhecia as palavras. (...)

O que é interessante é que Vergílio Ferreira de alguma forma a seguir desmente aquele sexismo através de uma afirmação de rebeldia de Sofia, com a qual empatizamos de imediato:

- Porque há-de a vida ter razão sobre nós? Porque havemos de ser sempre nós a submeter-nos? Um curso e um marido e filhos...

Ou seja, rebeldia contra a vida convencional, convencionalmente correta...


(52)

Em certo serão de Inverno, Sofia, Ana quebrou-te, creio que por descuido, um braço a uma boneca. Tu foste para o quarto, grave, sem uma lágrima. E de um a um quebraste todos os teus brinquedos, impedindo violentamente que te levassem os cacos: melhor que a náusea das compensações medianas, preferias o absoluto da destruição.

Senti um ataque brutal a todas as minhas vísceras e vi como era compreensível o sonho de Sofia. Realizar a vida num acto, num gesto, num sonho, por mais miserável que seja.

Sim, há aqui uma grandeza, um absoluto que atrai, que se admira. O que me interrogo, porém, é se se se ama uma pessoa assim. Dificilmente. E por isso, sem amor, esta pessoa encaminha-se irresistivelmente para o desastre.

Aliás, Vergílio Ferreira, mais à frente, faz uma correção, pequena, mas que se traduz num mundo de diferença:

(53)

«Reunir a vida num acto, num sonho. Mas ter primeiro a evidência da sua grandeza, da sua verdade. E ter a evidência daquilo que ele recusa.»

Este «Mas» tem toda a importância porque pode contribuir para afastar qualquer tendência mais destruidora, seja auto-, seja hetero-.


(53/4/5)

Um dos episódios mais marcantes deste livro, o encontro com o semeador Bailote. O problema da velhice (quem disse que, antigamente, os velhos eram respeitados?), do valor da utilidade para o que importa na vida, da objetificação do ser humano por parte de patrões.


- O homem enforcou-se.


terça-feira, 6 de abril de 2021

Aparição - Capítulo 4

 

4.

Portanto, eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte. (...)


Este capítulo é um dos mais complexos, ricos e interessantes deste livro. Vergílio Ferreira consegue condensar em quatro páginas uma quantidade infinita de sabedoria. Constituindo cada frase, por si só, uma unidade de reflexão independente ou quase independente das outras. Uma escrita extraordinária!


(43)

Portanto, eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte. E nunca mais até hoje eu soube inventar outro. (...)

Ou seja, como viver totalmente presente, isto é, não distraído, não ausente, não entorpecido, não cego, etc.? Sabendo que vem aí a morte que nega tudo e tudo rasura?

Sim, quanto aos outros problemas sinto-os também um pouco como "invenções", que a maior parte deles não são tão reais assim (tanto que, passados uns anos, ou menos, esquecemos até que eles existiram).

Portanto, o problema: Se sei que vamos todos morrer, eu incluído, que valor pode ter a vida? aliás, pergunto-me muitas vezes: com tudo o que eu gasto e consumo para viver como vivo, de um ponto de vista objetivo, a minha vida vale tanto? Para, depois, acabar no nada? E, ainda por cima, esquecido, tão esquecido como se nunca tivesse existido. Confesso que às vezes tenho dúvidas.

São estas dúvidas que Vergílio pretende esclarecer neste capítulo. Dando uma resposta? Talvez não, talvez fazendo perguntas diferentes.

Mas há mais. A um nível mais imediatamente prático, como arranjar força para lutar contra a injustiça, a miséria, a prisão, sabendo que nada acaba e que tudo acaba? Mas, absolutamente, eu é que acabo e tudo acaba comigo, pois sou eu que me dou vida a essa luta e, acabando eu, acaba a luta para mim.


(43)

(...) - quantos modos de esquecer ou de não saber ainda o pequeno problema fundamental. (...)

Sim, tantas maneiras que a sociedade criou para nos distrairmos, para não pensarmos sequer! Temos essa pressão, mas acrescentamos-lhe outras da nossa lavra. Inventar problemas acessórios é, como vimos, uma delas. Além de que esquecer é algo que fazemos com muita facilidade. No fim de contas, a memória controlada pelo próprio ser vivo é um ganho evolutivamente recente. É como se este problema nos pesasse, como se a sua tensão fosse intolerável para uma vida que todos desejamos mais tranquila. Como diz Vergílio:


(43)

(...) E quantas vezes agora o esqueço? O mais forte em nós é esta voz mineral, de fósseis, de pedras, de esquecimento. Ela germina no homem e faz-lhe pedras de tudo. Assim, quando procuro em mim a face original da minha presença no mundo, o que descubro não é o alarme da evidência, o prodígio angustioso da minha condição: o que descubro quase sempre é a indiferença bruta de uma coisa entre coisas. (...)

Uma das razões pelas quais não acredito na iluminação budista é precisamente o facto de aquilo que, numa altura da nossa vida, constituiu uma iluminação, um relâmpago de sabedoria, desaparece sempre inevitavelmente. Com sorte, conseguimos ficar com alguns resíduos vivos, às vezes pistas que nos permitem chegar outra vez a um momento semelhante. Mas habitualmente nem isso.

Quando li a frase «quando procuro em mim a face original da minha presença no mundo», veio-me à ideia a definição de Mindfulness dada por Jon Kabat-Zinn: (...) awareness thar arises through paying attention, on purpose, in the present moment, non-judgementally.

Note-se que, para a palavra portuguesa consciência, os anglo-saxónicos têm pelo menos três diferentes: conscience (a nossa consciência moral), consciousness (a nossa consciência das coisas) e awareness (uma perceção e compreensão muito abrangentes de tudo o que se está a passar) que penso que só pode ter a tradução de "consciencialização".

Aquela definição está muito próxima do tipo de consciência que Vergílio defende. Repare-se que Jon Kabat-Zinn não diz, na definição, ao que a pessoa deve prestar atenção. Ora, a seguir, ele introduz uma pequena "batota", ao propor que prestemos atenção à respiração, o que, apesar de tudo, já é uma distração.

Vergílio Ferreira é, assim, muito mais radical (no sentido de sério e rigoroso). Ele pede a nossa atenção para o que é essencial e, como já o sabemos bem, «O essencial é invisível para os olhos...» (Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, fala da raposa). E que "essencial" é este? Se fosse possível dizê-lo, isso significaria que ele se teria tornado visível, logo, não essencial...


(44)

E todavia, agora que me descubro vivo, agora que me penso, me sinto, me projecto nesta noite de vento, de estrelas, agora que me sei desde uma distância infinita, me reconheço não limitado por nada mas presente a mim próprio como se fosse o próprio mundo que sou eu, agora nada entendo da minha contingência. Como pensar que «eu poderia não existir»? Quando digo «eu», já estou vivo... Como entender que esta iluminação que sou eu, esta evidência axiomática que é a minha presença a mim próprio, esta fulguração sem princípio que é eu estar sendo, como entender que pudesse «não existir»?(...) E todavia eu sei que «isto» nasceu para o silêncio sem fim...

E do silêncio sem fim... Também tento imaginar o que era ser eu antes de ter nascido, quem é que estava «lá». Claro que a resposta racional é «nada». Mas imaginá-lo é um muro que não se consegue ultrapassar, pois nós estamos do lado de cá, do lado da existência e da vida.

Gosto mais de tentar este exercício, chamemos-lhe assim à falta de palavra melhor, porque estou menos contaminado culturalmente por narrativas fantasistas. Porque é curioso como a religião em que eu nasci e me criei não se ocupa do que éramos nós antes de nascer. Apenas se preocupa com o que acontece depois. Assim, parto para esta procura com um olhar mais puro.

E, de repente, eu existo-me como nunca existi antes. Porque do que eu fui só tenho uma memória e, agora, eu sou uma vivência. Que é sempre única e insubstituível. E exaltante. Que resulta do milagre (pois de um milagre se trata) de estar vivo.


(45)

Mas ofendo-te, velha mulher, aqui a desvendar a tua psicologia - eu, que detesto como um insulto essa coscuvilhice das minudências íntimas, esse ofensivo desmontar de relojoaria, como se um ser humano fosse um brinquedo.

Não posso deixar de pensar que Vergílio Ferreira tem toda a razão. Mas a nossa necessidade de para tudo encontrar causas e efeitos (não esqueçamos que o cérebro que faz isto foi-nos dotado pela natureza e pela evolução a fim de melhorar as nossas condições de sobrevivência) leva-nos a todos (até ao próprio autor) a cair sempre neste processo um tanto degradante, se não estiver iluminado pela empatia e pela compaixão.

Mas não só. Também o deve acompanhar a humildade de aceitar que nos «enganamos» sempre. Isto é, que, por mais inteligentes e perspicazes que sejamos, não conseguimos viver o que o outro está a viver, em primeiro lugar. Em segundo, quando traduzimos aquela tentativa de compreensão por palavras, estamos a destruir irremediavelmente a complexidade e a energia da pessoa objeto da nossa observação, reduzindo-a muitas vezes a uma caricatura falsa e cruel. Macbeth, pela mão de Shakespeare, de alguma forma alerta-nos:

Life's but a walking shadow, a poor player

That struts and frets his hour upon the stage

And then is heard no more: it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.

Ou, em português:

A vida é apenas uma sombra errante, um mau ator

A se pavonear e afligir no seu momento sobre o palco

E do qual nada mais se ouve. É uma história

Contada por um idiota, cheia de som e fúria,

Significando nada.


Em suma, Vergílio Ferreira detesta a Psicologia. a explicação e a descrição de como o ser humano funciona, porque o que é fundamental para a vida não é o "como", mas "o que" ou "quem" eu sou.


(...) assim eu esqueço tudo, e o que te resume, boa mulher, é esse teu velho álbum de fotografias, que tanta vez me explicaste por saberes que eu conhecia já a vertigem do tempo e me legaste depois para o guardar e eu tenho agora aqui na minha frente como o espectro das eras e das gentes que já mal sei e me fitam ainda do lado de lá da vida e me querem falar sem poderem e me angustiam como o olhar humano do Mondego dias antes de o António o matar.


segunda-feira, 29 de março de 2021

Aparição - Capítulos 1, 2 e 3


1.

Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora. (...)


(13)

Está uma manhã bonita, com um sol íntimo dourando o ar, um vento leve da planície, fresco de orvalhos.

É a primeira “intervenção” de muitas da cidade de Évora. Cidade – Personagem? Ou espaço ao serviço das personagens? Isto é, saberemos do estado de espírito das personagens pela maneira como veem e sentem a cidade? A resposta à segunda parte da pergunta parece-me evidente que é positiva. Mas eu acarinho a ideia de que Évora é também uma personagem deste livro, é certo que uma personagem com muitas faces e muitas ressonâncias, mas personagem apesar de tudo.

 

(18)

Relembro. Uma grande mesa oval resplandecente de brancura, cristais, reflexos de louças, dois grandes candeeiros de globos pálidos, e fora, pelos espaços da noite nua, uma memória grande de paz. Um longo abraço, quente de ternura, sufoca-nos a todos na procura de um refúgio, de uma alegria perdida quando? onde? o sonho não é de nunca.

«Uma alegria perdida» talvez quando a mãe começa a afastar-se do bebé. Quando os pais começam a afastar-se. Ou seja, quando saímos ou somos obrigados a sair da infância.

 

(...) Uma grande lua solene, suspensa sobre a aldeia, banhava toda a massa da montanha.

 


2.

Inútil tentar dormir. (...)


(...) Quer saber onde é que o pode encontrar.



3.

Mas não foi fácil encontrarmo-nos. (...)


(31) Apresentação das personagens femininas deste romance.

Uma constante na escrita de Vergílio Ferreira: mulheres surgem-nos mitificadas pelo olhar do narrador. Penso que tem a ver com o facto de, no tempo da ditadura, durante os primeiros anos de vida em que as raparigas “aparecem”, os rapazes eram afastados e dificilmente podiam conviver com elas.

No caso de Vergílio Ferreira (que esteve vários anos num seminário), acrescenta-se o afastamento da mãe que terá deixado uma “ferida” aberta e uma sede de uma mulher maior que a vida capaz de preencher esse vazio original e capaz de curar essa “ferida”.

Mas isso tudo pertence ao passado, poder-se-á argumentar. Pois, mas é o passado a matéria romanesca da maior parte dos seus romances. Porque, segundo Vergílio, só o passado abre o espaço à evocação maravilhada.

E quando se junta o feminino e a arte, como quando Cristina toca piano em (35 e 36), então surge aos nossos olhos de leitores o testemunho de uma vivência simplesmente extasiada.

 

(32)

Mas a arte não era para mim um mundo da letra impressa, uma estúpida invenção de passatempo ou de vaidade: era uma comunhão com a evidência, uma reencarnação na verdade de origens (…)

Pelo menos em Vergílio Ferreira, a arte é isto. Mas eu partilho desta visão da arte que ele, aliás, desenvolveu extensamente na sua obra ensaística.

 

(32)

Sim, Ana. Essa tua inquietação, essa tua fúria silogística, o desejo encarniçado de demonstrares, deram-me cedo a certeza de que nada em ti estava seguro.

É interessante como, abominando Vergílio Ferreira a psicologia (como veremos confirmado mais à frente), ele nunca deixa de ter observações psicológicas absolutamente perspicazes e certeiras (e que nada têm a ver com a habitualmente chamada “psicologia de café”).

 

(34)

Imprevistamente, Ana regressou à sua obsessão:

- Há uns versos no seu livro que me intrigam. Dizem assim, mais ou menos:

Do sangue nascem os deuses

que as religiões assassinam.

Ao sangue os deuses regressam

e só aí são eternos.

- Ah, não! - clamou Moura, bruscamente acordado na sua sobremesa. - Deixem Deus sossegado e o doutor Soares também.

E Vergílio Ferreira não nos diz mais nada sobre estes versos, deixando a nós, leitores, o trabalho e o prazer de os interpretar. Eis uma das coisas que mais aprecio neste escritor: como ele diz noutro lugar, ele assume sempre que o leitor é inteligente. E muito eu aprecio isso!

Como os interpreto eu? Com a ajuda de outras leituras que fiz de Vergílio Ferreira, suponho que os deuses nascem da nossa profunda fragilidade humana e da correspondente necessidade de alguma segurança. Nomeadamente, o ser humano sabe, ao contrário dos outros animais, que vai morrer. Este conhecimento seria insuportável se estivesse sempre presente no nosso espírito e se não tivéssemos um viés do otimismo impregnado em nós (ver Tali Sharot (2012). The Optimism Bias. Londres: Constable & Robinson Ltd.). Mas é uma realidade incontornável. Porém, além disso, os seres humanos precisaram de se apoiar em alguém mais poderoso e protetor do que eles e dessa necessidade profunda surgiram os deuses.

Porém, a institucionalização dessa criação tornou-a estúpida e vazia de sentido e, por consequência, “Deus morreu”. Mas a necessidade e a busca original ainda continuam vivas e angustiantes no ser humano, no mais fundo de si.

Também interpreto este poema como querendo alertar-nos para o risco de, ao querer encaixar os nossos valores mais profundos num regulamento ou numa instituição, poderem perder o seu fulgor e deixarem de ser uma fonte de motivação e de força interiores. Os nossos valores mais autênticos é ao mais fundo de nós que os devemos procurar e tentar encontrar, não fora de nós. Encontrados aí no nosso íntimo profundo, é aí que eles viverão talvez para sempre.


(35)

Cristina toca: E então eu vi, eu vi abrir-se à nossa frente o dom da revelação.

Todo este trecho me surge como metáfora do "nascimento" da Arte.


(39)

E, todavia, como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. Toda a manhã lutei não apenas com elas para me exprimir, mas ainda comigo mesmo para apanhar a minha evidência. A luz viva nas frestas da janela, o rumor da casa e da rua, a minha instalação nas coisas imediatas mineralizavam-me, embruteciam-me. Tinha o meu cérebro estável como uma pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para reparar a minha evidência necessitava de um estado de graça. Como os místicos em certas horas, eu sentia-me em secura. (…)

Palavras para acordar a consciência (no sentido de "awareness", não no sentido de "conscience", nem de "consciousness"). Depois, para guardá-la na memória. E palavras para, exprimindo-me, chegar aos outros, seja como "informação", seja como "obra de Arte".

O facto é que muitos insights são relâmpagos, não são dias claros e longos. O problema é sempre como voltar ao estado de graça inicial. Escrevemos para mais tarde podermos agarrar aquela evidência. Só que, fora do estado de graça, aquelas palavras tornam-se opacas, obscuras e deixam de fazer sentido para nós. Isto, claro, porque não somos Vergílio Ferreira. De cada vez que leio umas páginas deste livro, o estado de graça reacende-se como se estivesse sempre ali, apenas à espera de que uma luz o ilumine. Vergílio Ferreira é sempre essa luz constante e única.

 

(41)

(…) A verdade aparece e desaparece. Deus, a imortalidade e uma ideologia política e a sedução de uma obra de arte e a sedução de uma mulher – onde começam?, onde findam? Sou um indizível equilíbrio interior. Vivi, agi, toquei com as mãos tanta ilusão consistente. Depois a ilusão desfez-se. (…) Não cabe. Como não cabe a simpatia das mulheres que aborreci. Como não cabem as anedotas da infância, que já não têm graça nenhuma. Como não cabe nada do que já não sou eu. Não discuto, agora, não discuto! Sei lá porque é que uma anedota de que ri não tem hoje para mim graça nenhuma! Sei só que a não tem.

O mistério das coisas que nos encantaram e que, depois, perderam todo o brilho. O reverso disto é o Curse of Knowledge bias: nós já não nos lembramos do que é não saber, não dominar uma determinada competência. Por exemplo, o que me é não saber ler? Ou me não saber andar de bicicleta? Por já não conseguirmos evocar essas experiências antigas de “ausência” desse conhecimento, fica irremediavelmente perdida a surpresa fascinada das primeiras leituras ou dos primeiros passeios de bicicleta sem cair.

Como é fulcral este equilíbrio interior! Que evidencia como as razões vivem póstumas à decisão inconsciente, que é feita lá onde não chegamos. Mais, de as razões serem supérfluas e, na verdade, "não verdadeiras". Por isso, a exclamação «Sei lá porque (...)!». Razões que são muitas vezes apenas construções artificiais que procuram aprisionar o indizível.

 

(41)

E, todavia, pesa-me como uma pata de violência a realidade da pessoa que somos. Há muita coisa a arrumar, a harmonizar, muita coisa ainda a morrer. Mas por enquanto está viva. 

Esta «realidade» que sei que vai acabar. Mas sei-o apenas com um conhecimento académico, praticamente impossível de sentir verdadeiramente, a não ser em momentos de exceção. Podemos somente não ignorar o confronto dessa minha «realidade da pessoa» que sou com a ideia de morte, não tentando aliviar a tensão aí criada, a fim de ser inteiramente humano. E poder apreciar integralmente a dádiva de estarmos vivos.


(41)

Por enquanto sinto a evidência de que sou eu que me habito, de que vivo, de que sou uma entidade, uma presença total, uma necessidade do que existe, porque só há eu a existir, porque eu estou aqui, arre!, estou aqui, EU, este vulcão sem começo nem fim, só actividade, só estar sendo, EU, esta obscura e incandescente e fascinante e terrível presença que está atrás de tudo o que digo e faço e vejo - e onde se perde e esquece. EU! Ora este «eu» é para morrer. Morre como a intimidade de uma casa derrubada. Sei-o com a certeza absoluta do meu equilíbrio interior. Mas como é possível? Agora eu sou essa intimidade, agora eu sou o seu espírito, a sua evidência.

Mais uma vez, uma bela aproximação do Eu Observador. Como já referimos no final da postagem anterior, pela sua própria natureza, o Eu Observador não é suscetível de ser descrito pela linguagem, como Steven C. Hayes nos diz na obra referida: (…) the observing self is not an object of verbal relations. That is why we “know” less about it. The observing self is not a content-based sense of self that can be described directly. (…).


(...) Agora eu sou essa intimidade, agora eu sou o seu espírito, a sua evidência.


segunda-feira, 22 de março de 2021

Aparição – Trecho inicial em itálico

 


Aparição (1980), 15ª edição. Amadora: Livraria Bertrand.


Como introdução: Aparição talvez seja o romance mais extraordinário e único que já li em toda a minha vida longa de leitor. Só isto.



Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. (...)


(9)

Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens.

Olho a minha cadeira. Em que é que ela é minha? Em nada, apenas por uma convenção. E por eu estar vivo. Quando eu morrer, ela continuará… como, sob que forma? De onde veio ela, que mãos lhe mexeram, a moldaram, que pessoa a concebeu no papel? No fundo, que história traz ela e que eu ignoro e esqueço sequer de perguntar? Ela existe nas suas superfícies e na sua dureza utilitárias, mas ela é muito mais do que isso. É como um dia, lá fora, que vejo pela minha janela. Uma imagem, apenas. Mas, se eu olhar procurando compreender e abarcar a realidade que ali está, é todo um mundo (a maior parte dele, de mistério) que se apresenta ao meu olhar.

Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível.

É tão fácil um olhar de superfícies, de opacidades, e também de borboleta. Mas, quando consigo olhar a partir do lugar mais anterior de todos, anterior mesmo às palavras, explodem momentos de iluminação. Infelizmente, depois, eles desaparecem e tornam-se até inacessíveis à memória, em particular à sua evocação.


Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra.

A palavra que diga as coisas fixa-as e elas param de existir no fluir da existência, tal como elas são realmente. Talvez pior do que isso: a palavra nunca acerta. Nunca se encontra a palavra perfeita que revele, que transmita e que contenha tudo o que pretendemos. Não obstante, estamos sempre a tentar. Há milhares de anos. E, quando às vezes nos parece que conseguimos, se deixarmos passar algum tempo, todo o dito perde fulgor e exatidão, e torna-se não mais do que a sombra de uma sombra.

No entanto, vale a pena o esforço, sempre constante, sempre repetido, porque…

Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras.

Sim, também preciso de me libertar das ideias que me foram postas pelos outros para explicar tudo, para me tapar a originalidade profunda de tudo quanto existe em mim e à minha volta.

 

(10)

E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos (...)

Nós inventamos momento a momento. Podemos fazê-lo com as ruínas do nosso passado; ou da nossa rotina. Mas também podemos abrir-nos para o que há de novo.  A minha pergunta "O que é que de bom me está a acontecer agora, neste preciso momento?" pode ser uma via para entrar em contacto com esse sentir original, para essa invenção do que ainda não aconteceu ou, melhor, do que nunca realmente aconteceu.


E outra vez agora me deslumbra, em alarme, a presença iluminada de mim a mim próprio, o eco longínquo das vozes que me trespassam.

Um “Eu Observador”(1) que, sem ver propriamente, pressente todo o imenso ruído que constitui a minha vida, tanto interna como externa. Mas, afastado este ruído, eis que me surge…

Mas esta simples verdade de que estou vivo, me habito em evidência, me sinto como um absoluto divino, esta certeza fulgurante de que ilumino o mundo, de que há um fora que me vem de dentro, me implanta na vida necessariamente, esta totalização de mim a mim próprio que me não deixa ver os meus olhos, pensar o meu pensamento, porque ela é esses meus olhos e esse meu pensamento,

Trata-se de conseguir ir-me colocando atrás, cada vez mais atrás, até chegar a um lugar onde já não há mais nenhum atrás. Aí me torno o ser original, que se manifesta por um olhar original, que sente o que Vergílio aqui descreve.

esta verdade que me queima quando vejo o absurdo da morte, se pretendo segurá-la em minhas mãos, revê-la nas horas do esquecimento, foge-me como fumo, deixa-me embrutecido, raivoso de surpresa e de ridículo...

É difícil “ver” realmente a morte. Nem sempre consigo. Então penso: como vai estar este objeto daqui a 20, 30 ou 40 anos, quando eu já não estiver para o ver? O objeto continua, na sua imperturbabilidade, mas vazio, no meio de nada, porque eu já não existo, nada existe, nem ilusões nem nada. Num momento, é o tudo em fulgor de novo e de plenitude; noutro momento, nada. Como explica, a seguir, Vergílio Ferreira:

E, todavia, sei-o hoje, só há um problema para a vida, que é o de saber, saber a minha condição, e de restaurar a partir daí a plenitude e a autenticidade de tudo - da alegria, do heroísmo, da amargura, de cada gesto. Ah, ter a evidência ácida do milagre do que sou, de como infinitamente é necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho de morrer. A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo. Como é possível. Conheço-me o deus que recriou o mundo, o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodígio de invenções, descobertas, que só eu sei, recriei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímil. E este mundo completo, amealhado com suor, com o sangue que me aquece, um dia, um dia, - eu o sei até à vertigem - será o nada absoluto, dos astros mortos, do silêncio. Mas tudo isto é quase falso, é quase estúpido só de estar a pensá-lo, a dizê-lo, porque a sua evidência é um milagre instantâneo.

É o saber que tudo irá desaparecer com a minha morte que vai dar uma tonalidade de milagre intenso à minha vida do dia a dia. Assim eu não o esqueça! Assim eu não me distraia! Mas, sempre que o conseguir, …

(11)

(…) é como se me purificasse num tempo anterior à vida, num luminoso halo de coisas por nascerem.

 

O que acontece se partilharmos esta perceção que Vergílio Ferreira aqui expõe aos nossos olhos? Permanecemos mais inteiros, mais nós próprios e talvez mais felizes. Até porque ficaremos menos distraídos e, portanto, menos manipuláveis pela vontade "estranha" dos outros.


Mais uma vez, como de todas as outras vezes, sinto-me apanhado pela magia da escrita de Vergílio Ferreira. A descobrir coisas novas e surpreendentes. Não como da primeira vez, mas muito, muito mais do que a primeira vez. Porquê? Em parte, porque, na primeira vez, o desejar saber como a história se irá desenrolar se mete à frente. Sabida a história, ficamos disponíveis para tudo o resto que o livro tenha para dar. Que, no caso de Vergílio Ferreira, é sempre imenso, imenso.

Mas, e das vezes seguintes? Porque é que sempre que releio um livro de Vergílio, ele surge-me, ele revela-se-me em toda a sua maravilha, como se fosse uma primeira vez absolutamente deslumbrada? Não sei, sei é que nunca se gasta e, quando releio, é sempre um novo livro que me surge à leitura.

 

Tomo as suas mãos nas minhas e no deslumbramento da noite abre-se, angustiada, a flor da comunhão...


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(1) Vejamos o que sobre o Eu Observador tem a dizer (tradução minha) o criador da Acceptance and Commitment Therapy, Steven C. Hayes:

(...) o eu observador não é um objeto de relações verbais. É por isso que "sabemos" menos sobre ele. O eu observador não é uma sensação de si mesmo baseada em conteúdos que podem ser descritos diretamente. (...)

A sensação de um lugar a partir do qual as observações conscientes são feitas é uma sensação estranha porque, para a pessoa que a experiencia, não tem limites conhecidos. Nunca se pode saber conscientemente os limites, porque todo o conhecimento verbal se referencia a si como um [outro] conhecedor.

Este "eu" é ilimitado na medida em que não podemos experimentar nada de que saibamos (ou, para ser muito precisos, de que saibamos que sabemos) sem que esteja nele o "você-como-perspectiva". (...)

(...) Aqui, mesmo no meio do próprio conhecimento verbal, está um evento sem delimitação. Eventos sem delimitação incluem nada [no-thing] (ou como a nossa comunidade linguística veio escrevê-lo mais tarde "nada" ["nothing"]) e incluem "todas as coisas" ["every-thing"]. (...)

Hayes, Steven C. (2005). Get Out of Your Mind and Into Your Life: The New Acceptance and Commitment Therapy / Steven Hayes & Spencer Smith. Oakland: New Harbinger Publications, Inc., p. 107

Aparição - Capítulo 10

  10. Trabalho no Liceu com entusiasmo - o entusiasmo do principiante, ou seja, do que ainda está criando. (...) (108) (...) Mas eu sabia, e...